quarta-feira, 2 de julho de 2008

ARTIGO: TEATRO E FILOSOFIA



Nem sempre o espectador português tem a oportunidade para ir ao teatro ver uma peça sobre Filosofia.


Recordamo-nos de uma peça apresentada pelo Teatro Bairro Alto, com Luis Miguel Cintra, sobre a vida do Filósofo Empédocles.


Também temos visto algumas encenações sobre a morte do Filósofo grego Sócrates...





Agora, com a peça de Araújo Pereira e Pedro Mexia, certamente que já não passará indiferente à maioria dos portugueses: a Filosofia ainda desperta interesse aos profissionais não licenciados em Filosofia.

A GET - Revista Digital de Prática Filosófica - assistiu à peça no passado dia 28 de Junho de 2008.

Com uma sala cheia, a primeira questão que nos colocámos foi: Porque está cheia esta sala? Pelo interesse filosófico do espectáculo? Ou pelo facto do actor ser extremamente conhecido e os espectadores virem com expectativas de muito humor?

Antes de escrevermos este artigo, passámos em revista algumas das publicações que anunciaram o espectáculo e verificámos que quase todas alertavam para o facto da peça fazer parte de um projecto diferente. Em
entrevista à Agência Lusa, Ricardo Araújo Pereira refere também que não vai repetir a experiência. Resta saber se este comentário faz parte da habitual ironia do actor ou se é um sinal de que o futuro teatral poderá passar pelo aprofundamento temático nesta área de trabalho.

A nossa pergunta é a seguinte: se esta peça tivesse sido representada por outro actor menos conhecido, a sala também estaria cheia todos os dias? Ou será que só os grandes actores podem dar-se ao luxo de fazer "serviço público" em Filosofia?

Não podemos ter qualquer dúvida que a crise actualmente instalada na Filosofia (desde o ensino secundário ao universitário) veio ganhar bastante com esta promoção teatral. Ricardo Araújo Pereira tem a virtude de conseguir encher uma sala (cerca de 400 pessoas), com uma conferência de Filosofia. Todos sabemos que as conferências universitárias de Filosofia costumam ter pouco mais de 30 ou 40 pessoas.

Posto isto, poderíamos aproveitar a experiência e começar a pensar em formas alternativas para a renovação da Filosofia.
De facto, Araújo Pereira revela ter excelentes dotes oratórios, conseguindo manter a atenção do público durante 60 a 70 minutos.

Deixamos aqui duas ideias em cima da mesa: ou passamos a convidar o actor para participar em conferências de Filosofia ou esperamos que alguém grave a peça e a disponibilize em DVD, para que os profissionais da Filosofia a possam usar como material didáctico-pedagógico.

Quanto à peça propriamente dita, gostaríamos de começar por citar Pedro Mexia:

"(...) Isaiah Berlin recorda a «felicidade intelectual» que experimentou no convívio com o seu amigo. Céptico e combativo, Austin detestava falácias argumentativas e tudo o que soasse vago ou obscuro. Isso fazia das suas aulas e tertúlias um excitante despique. Berlin conta que Austin queria ter sido engenheiro ou arquitecto, tal o seu gosto por fazer coisas. Como foi filósofo, fez coisas com palavras." (Pedro Mexia in Estado Civil - Blogue do Dramaturgo)

Na verdade, esta peça mostra-nos como é possível fazer FILOSOFIA APLICADA ou, se quisermos, PRATICAR A FILOSOFIA. No entanto, também é curioso verificar que a influência de uma vocação mais virada para a engenharia e para a arquitectura, fizeram de AUstin um Filósofo mais atento à prática da linguagem quotidiana. O estudo destas questões são extremamente úteis, por exemplo, à formação do Consultor Filosófico.

Finalmente, Rita Martins, do jornal Público, refere uma das questões que para nós é essencial: o "carácter experimental» deste projecto de teatro filosófico e o "arrojo deste projecto".

Quanto à primeira questão, pensamos que esta peça, enquanto experiência, poderá ser o inicio de uma exploração mais vasta nesta área. Se pensarmos, por exemplo, em temas filosóficos ainda mais interessantes para o grande público (como por exemplo, o sentido da vida, a felicidade, o amor, etc.), podemos ter aqui um forte potencial para uma exploração teatral da Filosofia. E pelo que já vimos, a Filosofia só tem a ganhar, tal como os espectadores, que saiem da peça muito mais enriquecidos e motivados para uma conversa filosófica entre amigos.

Quanto à segunda questão, pensamos que a dificuldade em teatralizar esta obra de John Austin trouxe a Ricardo Araújo Pereira uma exigência maior de rigor, atenção e concentração. A opção da direcção técnica foi realizar uma peça bastante próxima do original, tendo como resultado um espectáculo mais filosófico daquilo que era de esperar.

"O espectáculo balança entre um teatro-conferência cómico e uma stand-up comedy séria e, nesta indefinição, que afasta os perigos do aborrecimento e do humor fácil, previnem-se os riscos de um trabalho de carácter experimental. É, por isso, uma proposta teatral ambígua - corajosa e tímida, provocatória e prudente. O arrojo do projecto é refreado na sua concretização, que fica a meio caminho entre a estratégia comercial e o exercício filosófico, entre o puro divertimento e o genuíno prazer intelectual." (Rita Martins "Filosofia da linguagem em cena" in Jornal Público, 2 de Julho de 2008)

Por todas estas razões, atribuímos a este espectáculo teatral a classificação final de 19 valores.

Ficamos a aguardar por mais.

GET - Revista Digital de Prática Filosófica
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