domingo, 13 de junho de 2010

UMA FILOSOFIA DE BOLSO (PREMIADA PELA UNESCO) JÁ FOI AO TEATRO

"Masako Point" é o nome do espectáculo que se estreia sexta-feira no espaço Negócio, da Galeria ZDB, em Lisboa, no âmbito de um projecto transdisciplinar desenvolvido por um colectivo de artistas portugueses e estrangeiros.
"A ideia partiu da equipa portuguesa, que começou a trabalhar num livro que se chama '101 Experiências da Filosofia da Vida Quotidiana', de um filósofo francês [Roger-Pol Droit], que é uma espécie de livro de filosofia de bolso", disse à Lusa Paula Diogo, um dos elementos do grupo.
Conheceram-se no curso de encenação que a companhia britânica Third Angel deu no ano passado na Fundação Calouste Gulbenkian e apresentaram, na altura, uma proposta que consistia em fazer as 101 experiências que o filósofo propõe sobre a percepção da vida quotidiana e fazer um vídeo com elas, cujo registo poderia durar, no máximo, um minuto por cada uma.
Fizeram uma primeira apresentação na Gulbenkian, mas depois acharam que "podia ser interessante" propor a mesma ideia de base a uma equipa de outras áreas, que não tivesse nada que ver com teatro, explicou Paula Diogo.
Assim, a Alfredo Martins, Cláudia Gaiolas, Paula Diogo, Simão Cayatte e Sofia Ferrão juntaram-se seis artistas convidados: Alex Alves (músico brasileiro de nacionalidade alemã que vive na Bélgica), Liina Keevalik (cenógrafa estónia), Lior Azivoor (bailarina israelita), Masako Hattori (japonesa residente em França que trabalha com vídeo), Mikko Hynninen (finlandês que faz desenho de luz e som) e Oren Sagiv (arquitecto israelita).
A partir da proposta da obra do pensador francês, desenvolveram o Projecto 101, que consiste num conjunto concertado de quatro acções - "flyers", ursos sociais, montras e o espectáculo "Masako Point" - cujo objectivo é "reorganizar a percepção e experiência do real".
Até 19 de Abril, serão distribuídos em bares e lojas da zona do Bairro Alto "flyers" contendo, como "sugestão-desafio", 26 das 101 experiências propostas na obra de Roger-Pol Droit, com indicações de tempo de duração e outras instruções.
"Há umas mais filosóficas e outras mais práticas, e outras ainda são piadas", observou Paula Diogo, acrescentando que "o autor não se leva muito a sério" e que, por isso, também eles seguiram esse registo.
Entre as "provocações" impressas e distribuídas, estão: "sentir-se eterno, correr num cemitério durante meia-hora, imaginar a sua morte iminente, perder-se no metro durante meia-hora, beber água e urinar ao mesmo tempo, transformar-se em música e sorrir para um estranho ou dizer-lhe que é lindo".
A segunda acção do Projecto 101 intitula-se "Ursos Sociais" mas afinal, o urso é um só e vai andar pelo Bairro Alto, parando de vez em quando para tomar café e interagir com as pessoas.
"Pretendemos que estas acções sejam independentes, que sejam acontecimentos e causem alguma estranheza, para que as pessoas se interroguem sobre o que se passa", sublinhou.
A terceira, em funcionamento desde terça-feira, consiste em instalar nas montras de várias lojas, no trajecto entre o Largo de Camões e a Calçada do Combro, um circuito de televisões que passarão ininterruptamente vídeos criados pela equipa do projecto a partir da realização das 101 experiências.
Na quarta acção, o espectáculo Masako Point, em cena na Negócio ZDB também até 19 de Abril, "tentámos aplicar todas as ideias do Roger-Pol Droit e daquilo que ele pretende com o livro, que é uma alteração da percepção do real".
"Tentámos aplicar isso ao que nós conhecemos, que é o espaço do teatro, e tudo o que tem que ver com as convenções teatrais e com o que implica fazer um espectáculo", prosseguiu.
O nome "Masako Point" provém de uma "teoria comportamental de um francês que tem que ver com esta sensação de alteração da percepção de tudo o que nos rodeia e foi ela que serviu de base ao desenvolvimento do trabalho para o espectáculo".
"Por isso, achámos que fazia sentido que se chamasse assim", concluiu.

ANC.
Lusa/fim

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