quarta-feira, 4 de maio de 2011

ENTREVISTA GET Nº 2 - 4 DE MAIO DE 2011 - NUNO PAULOS TAVARES


TEMA - «ACONSELHAMENTO FILOSÓFICO»


GET – Já ouviu falar em «Aconselhamento Filosófico»? Se sim, qual foi a 1ª vez?
R – Corria o ano de 2006 quando pela primeira vez contactei com o Aconselhamento Filosófico. Foi de uma forma não intencional, enquanto pesquisava bibliografia para um trabalho que na altura estava a desenvolver, deparei-me com o site do Professor Oscar Brenifier. A partir desse dia comecei a envolver-me no movimento das novas práticas filosóficas, iniciando a minha formação na área.

GET – O que entende por «Aconselhamento Filosófico»?
R - O Aconselhamento e Consultadoria Filosófica é uma actividade educacional que propõe a clientes individuais a utilização de métodos, teorias e abordagens filosóficas para solucionar ou gerir problemas associados à existência humana.
É dirigida a clientes que são racionais e funcionais na vida do dia-a-dia e que possam beneficiar de assistência filosófica na resolução ou gestão de problemas e situações associadas à experiência quotidiana. A consulta filosófica é um momento de reforço da racionalidade na relação do consultante com a existência. O confronto das produções orais (ideias, teses, opiniões, medos, apreensões, dúvidas…) com a Lógica, a Razoabilidade, a omnipresença da Alternativa e a Diferença, em uma dinâmica dialéctica, constitui-se como exercício de crítica (auto-crítica) e busca da pressuposta coerência que preside ao pensamento filosófico.
Os candidatos mais adequados são pessoas cujos problemas se centram em questões de moralidade privada ou ética profissional; questões de sentido, valor ou objectivo; questões de realização pessoal ou profissional; questões de sistemas de crenças indeterminados ou inconsistentes; questões que exijam interpretação filosófica de circunstâncias em mudança.

GET – Conhece/prefere outras expressões para denominar esta “nova” prática filosófica?
R – Prefiro Aconselhamento e Consultadoria Filosófica.

GET – Qual a sua relação com o «Aconselhamento Filosófico»?
R – Desde 2008 que sou certificado em Philosophical Counseling pela APPA e Institut de Pratiques Philosophiques. Nesse ano iniciei a minha actividade como Consultor Filosófico edesde então dou consultas na cidade do Porto, sob o lema de Marco Aurélio: A qualidade da nossa vida depende da qualidade dos nossos pensamentos. 

GET – Qual a história do «Aconselhamento Filosófico» no mundo?
R – A Consultadoria Filosófica é inerente à prática da Filosofia, assim está presente desde a sua génese grega e existem vários exemplos históricos de reputados filósofos como consultores. No entanto, enquanto ramo específico, e apesar de algumas objecções de alguns filósofos americanos e franceses, que defendem ter iniciado as experiências percursoras, a historiografia oficial aponta o início da década de oitenta e a figura do alemão Gerd Achenbach (com a sua abordagem meta-metodológica) como o momento fundador e centro de difusão desta prática filosófica pelo mundo.

GET – E em Portugal? Quando surgiu pela primeira vez? Que desenvolvimentos já teve?
R – Tanto quanto sei, o aparecimento desta actividade em Portugal remonta ao ano de 2004, aquando da fundação da Associação Portuguesa de Aconselhamento Ético e Filosófico (APAEF), liderada por Jorge Humberto Dias.

GET – Tem ideia de quantos Conselheiros Filosóficos existem em Portugal? Quem são?
R – Desconheço o número de praticantes em Portugal.

GET – Que livros conhece sobre Aconselhamento Filosófico?
R – Os livros a que recorro com mais frequência são PhilosophicalPractice, Mais Platão, Menos Prozac, As Grandes Questões da Vida, todos de Lou Marinofff; Philosophy as a Way of Life de Pierre Hadot; Introducción al Asesoramiento Y la Orientación Filossófica de José Barrientos, Philosophy for Counselling and Psycotherapy de Alex Howard e Free Space de Jos Kessels, Rrik Boers e Pieter Mossert. Nem todos estes títulos são especificamente dedicados à Consultadoria Filosófica, contudo, e tal como todas as produções ao longo da História da Filosofia são passíveis de recurso, dependendo do tipo de questão, situação ou problema a ser investigado em consulta.

GET – E em português, já existe algum?
R – Os livros de LouMarinoff têm tradução portuguesa. De produção nacional, conheço Pensar Bem, Viver Melhor de Jorge Humberto Dias, agora na 4ª edição. Do outro lado do Atlântico, em português do Brasil existem muitas publicações sob o conceito de Filosofia Clínica. 

GET – Quais os requisitos para ser Conselheiro Filosófico?
R – Sólida formação filosófica, domínio das competências inerentes ao pensamento crítico, disponibilidade para a escuta activa, facilidade em identificar as problemáticas filosóficas inerentes ao discurso do consultante, domínio da arte de questionar, capacidade de identificar e adaptar as suas práticas às características específicas do consultante, capacidade de facilitar diálogos frutuosos através da problematização e humildade intelectual e, naturalmente, amor pela busca da sabedoria.

GET – Existe alguma instituição que dê formação nesta área em Portugal?
R – A Associação Portuguesa de Aconselhamento Ético e Filosófico e o projecto de que faço parte: Enteléquia-Filosofia Prática. Sei que existe outra associação mais recente mas desconheço a credibilidade, rigor e qualidade das suas formações.

GET – Existe alguma instituição que regulamente a profissão de Conselheiro Filosófico?
R – Em Portugal, ainda não.

GET – Como vê o futuro do Aconselhamento Filosófico em Portugal?
R – O movimento da Filosofia Prática em Portugal tem tido um crescimento assinalável nos últimos anos. No entanto, não penso que a Consultadoria Filosófica seja a vertente mais vibrante. Mesmo assim, prevejo que os resultados empíricos das consultas filosóficas e a transmissão da experiência do questionamento radical definidor desta actividade começarão a atrair mais consultantes e licenciados em Filosofia em busca de formação específica.

GET – Pretende acrescentar algo mais, que não tenha sido contemplado nas perguntas acima?
R – Não.


Sem comentários: