quinta-feira, 26 de maio de 2011

ENTREVISTA GET Nº 3 - 26 DE MAIO DE 2011 - JORGE HUMBERTO DIAS


TEMA - «ACONSELHAMENTO FILOSÓFICO»

GET – Já ouviu falar em «Aconselhamento Filosófico»? Se sim, qual foi a 1ª vez?

R – A primeira vez foi através de uma consultante, que me falou de um livro que tinha lido. Referia-se a Lou Marinoff e a Plato, not Prozac. Já não me recordo bem o ano, mas refiro isso no meu livro «Pensar bem, viver melhor». Nessa altura, já eu tinha lido Epicuro e a sua «Carta sobre a Felicidade». É de facto uma obra decisiva e marcante para a Prática Filosófica.


No entanto, antes disso, já eu tinha participado em alguns projectos de aplicação da Filosofia ao mundo quotidiano e empresarial. Recordo por exemplo, a colaboração num programa de rádio, na zona da grande Lisboa, em que abordávamos filosoficamente, temas da vida das pessoas, como por exemplo, a saudade, o amor, a solidão, a amizade, etc. Os ouvintes telefonavam e depois estabelecia-se, em directo, um diálogo filosófico, onde a ajuda do Locutor era de extrema utilidade.

GET – O que entende por «Aconselhamento Filosófico»?

R – É a utilização dos conteúdos da Filosofia (teorias, definições, métodos, técnicas, etc.) para a análise, dialogada, da vida de uma pessoa ou de um tópico em específico. No fundo, o Filósofo aconselha a pessoa a pensar melhor, ou seja, ajuda a pessoa a abrir o horizonte reflexivo, a encontrar eventuais contradições, a relacionar questões diferentes, a encontrar um sentido, etc.

GET – Conhece/prefere outras expressões para denominar esta “nova” prática filosófica?

R – Julgo que essa questão não é muito importante. Veja por exemplo o que acontece nas outras profissões. Peguemos no caso dos Professores. Há 6 anos atrás, quem estudasse a licenciatura em «Ensino de Português», era imediatamente considerado Professor (de Português), embora pudesse dar Explicações e aconselhar alunos no processo dos exames nacionais. O licenciado em Direito também é de imediato Advogado, podendo dar consultas e prestar aconselhamento jurídico. E nunca ouvi ninguém dizer que esse profissional é um Conselheiro Jurídico.

Portanto, acho que essa é uma questão menor, embora não deixe de ser interessante…


Julgo que o importante é defender a figura do Filósofo, tentando, ao mesmo tempo, alterar a imagem comum do Filósofo como um ser metafísico e alheio a este mundo.

GET – Qual a sua relação com o «Aconselhamento Filosófico»?

R – Desde 2004 que iniciei um caminho neste subdominío da Filosofia. Participei na fundação de uma Associação - a APAEF (Associação Portuguesa de Aconselhamento Ético e Filosófico) – que neste momento está parada, devido à demissão do seu Presidente, o Nuno Paulos Tavares.


Entretanto, em 2008, criei um projecto empresarial “a solo”, como fazem os cantores, depois de terem participado numa boys band, por exemplo. No Gabinete PROJECT@ tenho desenvolvido várias actividades e projectos. Há momentos em que investimos mais em cursos para professores, em workshops para técnicos, em conferências de divulgação / reflexão, em publicações, etc.

Neste momento, estamos com a agenda cheia nos processos de consulta a pessoas com problemas.


O crescimento do Gabinete e das suas actividades exigiu a realização de algumas parcerias, assim como a necessidade de ter um secretariado.


Consideramos importante a presença na internet, assim como o diálogo internacional com projectos de outros colegas.


Neste momento, estamos a desenvolver um projecto de investigação científica, que envolve várias Universidades e entidades.

GET – Qual a história do «Aconselhamento Filosófico» no mundo?

R – A História já foi escrita pelo José Barrientos, professor na Universidade de Sevilha e autor de um livro que introduz o leitor no tema.


No entanto, falta ainda a História do Aconselhamento Filosófico em Portugal. Esperemos pela primeira Tese de Doutoramento o faça ou então um artigo científico ou até um projecto editorial.

GET – E em Portugal? Quando surgiu pela primeira vez? Que desenvolvimentos já teve?

R – Das investigações que fiz, julgo que o primeiro deve ser sido o Dr. Diniz Lobato. Nos anos 90 já o Semanário Expresso publicava uma reportagem sobre o tema.


Depois, a fundação da APAEF em 2004, deu um contributo decisivo para o aparecimento de vários profissionais, actividades, projectos, etc. Esperemos que já não pare.


No entanto, também não é desejável que tenhamos a realidade italiana, onde existem mais de 14 associações de prática filosófica, dando a entender falta de entendimento e de união entre os profissionais da mesma área. E isso, acho que é muito negativo para a profissão.

O próximo passo é de facto a criação de cursos na Universidade e o desenvolvimento de investigação científica na FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia), por exemplo.

GET – Tem ideia de quantos Conselheiros Filosóficos existem em Portugal? Quem são?

R – Quando estive na Direcção da APAEF, tinha uma ideia. Neste momento não sei. No entanto, acho que não devem ser muitos…


Do que conheço, existe a Dra. Marisa Cruz em Lisboa; o Dr. Filipe Meneses na Figueira da Foz; o Dr. Tomás Carneiro e o Dr. Nuno Tavares no Porto; não sei se a Dra. Conceição Machado está a exercer em Lisboa ou o Dr. Eugénio Oliveira em Famalicão.


No Algarve, julgo que apenas existe o meu Gabinete, em Quarteira e Faro.

GET – Que livros conhece sobre Aconselhamento Filosófico?

R – Felizmente, já existem muitos. A maioria são estrangeiros. Destaco os artigos do International Journal of Applied Philosophy (Inglaterra), a revista da APPA (Lou Marinoff) e o International Journal of Philosophical Practice (EUA). Destaco também a obra de Peter Raabe, de José Barrientos, Ran Lahav, Gerd Achenbach. Em Itália há uma colecção muito boa, dirigida por Umberto Galimberti.

GET – E em português, já existe algum?

R - Em Português, apenas existe o meu livro, que publiquei com a APAEF e a Ésquilo, em 2006, assim como as Actas da APAEF.


Soube hoje que o Dr. Filipe Meneses publicou um artigo em português na Revista de Filosofia da Universidade de Coimbra. Mas ainda não tive oportunidade de o ler.


No meu caso específico, tenho escrito mais em Espanha, pois existem mais apoios institucionais e financeiros, assim como colegas a trabalhar em projectos inovadores.

Inevitavelmente, as próximas obras terão de ser em inglês…

GET – Quais os requisitos para ser Conselheiro Filosófico?

R – Este assunto também tem sido debatido na comunidade científica. Julgo que o futuro exigirá, pelo menos, o Mestrado em Prática Filosófica. Por enquanto, a Licenciatura vai sendo suficiente e como não há mais ofertas académicas, os profissionais vão fazendo curtas especializações em cursos de associações e outras organizações, portuguesas ou estrangeiras.

GET – Existe alguma instituição que dê formação nesta área em Portugal?

R – Neste momento, existe o meu Gabinete, que está neste momento a organizar um curso em Lisboa, parceria com o Consultório do Eu (da Dra. Marisa Cruz) e envolvendo vários Consultores Filosóficos.


A Entelequia (Dr. Nuno Paulos Tavares) também realiza workshops sobre a Prática Filosófica.


Sei que a APEFP (projecto associativo de Famalicão) também já organizou um curso com o meu colega José Barrientos e está com uma dinâmica importante para a disciplina. Esperemos que cresça ainda mais.

Sei que também têm existido uns workshops em Lisboa, numa Escola de Línguas (LanguageCraft), ministrados pela Dra. Luisa Abreu e pelo professor Oscar Brenifier.


No estrangeiro, algumas Universidades já oferecem cursos, mestrados, doutoramentos.

GET – Existe alguma instituição que regulamente a profissão de Conselheiro Filosófico?

R – Ainda não. Para isso, é necessário que a profissão reúna algumas condições: cursos na Universidade, revistas científicas na área, congressos nacionais e internacionais, etc. Esperemos que venhamos a conseguir…

GET – Como vê o futuro do Aconselhamento Filosófico em Portugal?

R – Tenho esperança que, aos poucos, os projectos se consolidem e desenvolvam.

GET – Pretende acrescentar algo mais, que não tenha sido contemplado nas perguntas acima?

R – Acho que não.

GET – Muito obrigado pela sua participação.

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