quinta-feira, 26 de maio de 2011

1º ARTIGO CIENTÍFICO EM PORTUGAL SOBRE ACONSELHAMENTO FILOSÓFICO

Acaba de ser lançado, na Revista Filosófica de Coimbra (vol.20, n.º39) o artigo:


"A ideia geral do "Aconselhamento Filosófico". Uma introdução ao tema", de Filipe M. Menezes.

"Hospedamos uma introdução a uma nova realidade entre nós - o aconselhamento filosófico - que serve a F. Menezes para despertar o interesse do mundo académico, sobretudo nacional, é claro, suscitando assim uma maior e necessária ou urgente reflexão."

(in: Nota Editorial, por Mário Santiago de Carvalho)
 
FONTE: ViaFilosofia

ENTREVISTA GET Nº 3 - 26 DE MAIO DE 2011 - JORGE HUMBERTO DIAS


TEMA - «ACONSELHAMENTO FILOSÓFICO»

GET – Já ouviu falar em «Aconselhamento Filosófico»? Se sim, qual foi a 1ª vez?

R – A primeira vez foi através de uma consultante, que me falou de um livro que tinha lido. Referia-se a Lou Marinoff e a Plato, not Prozac. Já não me recordo bem o ano, mas refiro isso no meu livro «Pensar bem, viver melhor». Nessa altura, já eu tinha lido Epicuro e a sua «Carta sobre a Felicidade». É de facto uma obra decisiva e marcante para a Prática Filosófica.


No entanto, antes disso, já eu tinha participado em alguns projectos de aplicação da Filosofia ao mundo quotidiano e empresarial. Recordo por exemplo, a colaboração num programa de rádio, na zona da grande Lisboa, em que abordávamos filosoficamente, temas da vida das pessoas, como por exemplo, a saudade, o amor, a solidão, a amizade, etc. Os ouvintes telefonavam e depois estabelecia-se, em directo, um diálogo filosófico, onde a ajuda do Locutor era de extrema utilidade.

GET – O que entende por «Aconselhamento Filosófico»?

R – É a utilização dos conteúdos da Filosofia (teorias, definições, métodos, técnicas, etc.) para a análise, dialogada, da vida de uma pessoa ou de um tópico em específico. No fundo, o Filósofo aconselha a pessoa a pensar melhor, ou seja, ajuda a pessoa a abrir o horizonte reflexivo, a encontrar eventuais contradições, a relacionar questões diferentes, a encontrar um sentido, etc.

GET – Conhece/prefere outras expressões para denominar esta “nova” prática filosófica?

R – Julgo que essa questão não é muito importante. Veja por exemplo o que acontece nas outras profissões. Peguemos no caso dos Professores. Há 6 anos atrás, quem estudasse a licenciatura em «Ensino de Português», era imediatamente considerado Professor (de Português), embora pudesse dar Explicações e aconselhar alunos no processo dos exames nacionais. O licenciado em Direito também é de imediato Advogado, podendo dar consultas e prestar aconselhamento jurídico. E nunca ouvi ninguém dizer que esse profissional é um Conselheiro Jurídico.

Portanto, acho que essa é uma questão menor, embora não deixe de ser interessante…


Julgo que o importante é defender a figura do Filósofo, tentando, ao mesmo tempo, alterar a imagem comum do Filósofo como um ser metafísico e alheio a este mundo.

GET – Qual a sua relação com o «Aconselhamento Filosófico»?

R – Desde 2004 que iniciei um caminho neste subdominío da Filosofia. Participei na fundação de uma Associação - a APAEF (Associação Portuguesa de Aconselhamento Ético e Filosófico) – que neste momento está parada, devido à demissão do seu Presidente, o Nuno Paulos Tavares.


Entretanto, em 2008, criei um projecto empresarial “a solo”, como fazem os cantores, depois de terem participado numa boys band, por exemplo. No Gabinete PROJECT@ tenho desenvolvido várias actividades e projectos. Há momentos em que investimos mais em cursos para professores, em workshops para técnicos, em conferências de divulgação / reflexão, em publicações, etc.

Neste momento, estamos com a agenda cheia nos processos de consulta a pessoas com problemas.


O crescimento do Gabinete e das suas actividades exigiu a realização de algumas parcerias, assim como a necessidade de ter um secretariado.


Consideramos importante a presença na internet, assim como o diálogo internacional com projectos de outros colegas.


Neste momento, estamos a desenvolver um projecto de investigação científica, que envolve várias Universidades e entidades.

GET – Qual a história do «Aconselhamento Filosófico» no mundo?

R – A História já foi escrita pelo José Barrientos, professor na Universidade de Sevilha e autor de um livro que introduz o leitor no tema.


No entanto, falta ainda a História do Aconselhamento Filosófico em Portugal. Esperemos pela primeira Tese de Doutoramento o faça ou então um artigo científico ou até um projecto editorial.

GET – E em Portugal? Quando surgiu pela primeira vez? Que desenvolvimentos já teve?

R – Das investigações que fiz, julgo que o primeiro deve ser sido o Dr. Diniz Lobato. Nos anos 90 já o Semanário Expresso publicava uma reportagem sobre o tema.


Depois, a fundação da APAEF em 2004, deu um contributo decisivo para o aparecimento de vários profissionais, actividades, projectos, etc. Esperemos que já não pare.


No entanto, também não é desejável que tenhamos a realidade italiana, onde existem mais de 14 associações de prática filosófica, dando a entender falta de entendimento e de união entre os profissionais da mesma área. E isso, acho que é muito negativo para a profissão.

O próximo passo é de facto a criação de cursos na Universidade e o desenvolvimento de investigação científica na FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia), por exemplo.

GET – Tem ideia de quantos Conselheiros Filosóficos existem em Portugal? Quem são?

R – Quando estive na Direcção da APAEF, tinha uma ideia. Neste momento não sei. No entanto, acho que não devem ser muitos…


Do que conheço, existe a Dra. Marisa Cruz em Lisboa; o Dr. Filipe Meneses na Figueira da Foz; o Dr. Tomás Carneiro e o Dr. Nuno Tavares no Porto; não sei se a Dra. Conceição Machado está a exercer em Lisboa ou o Dr. Eugénio Oliveira em Famalicão.


No Algarve, julgo que apenas existe o meu Gabinete, em Quarteira e Faro.

GET – Que livros conhece sobre Aconselhamento Filosófico?

R – Felizmente, já existem muitos. A maioria são estrangeiros. Destaco os artigos do International Journal of Applied Philosophy (Inglaterra), a revista da APPA (Lou Marinoff) e o International Journal of Philosophical Practice (EUA). Destaco também a obra de Peter Raabe, de José Barrientos, Ran Lahav, Gerd Achenbach. Em Itália há uma colecção muito boa, dirigida por Umberto Galimberti.

GET – E em português, já existe algum?

R - Em Português, apenas existe o meu livro, que publiquei com a APAEF e a Ésquilo, em 2006, assim como as Actas da APAEF.


Soube hoje que o Dr. Filipe Meneses publicou um artigo em português na Revista de Filosofia da Universidade de Coimbra. Mas ainda não tive oportunidade de o ler.


No meu caso específico, tenho escrito mais em Espanha, pois existem mais apoios institucionais e financeiros, assim como colegas a trabalhar em projectos inovadores.

Inevitavelmente, as próximas obras terão de ser em inglês…

GET – Quais os requisitos para ser Conselheiro Filosófico?

R – Este assunto também tem sido debatido na comunidade científica. Julgo que o futuro exigirá, pelo menos, o Mestrado em Prática Filosófica. Por enquanto, a Licenciatura vai sendo suficiente e como não há mais ofertas académicas, os profissionais vão fazendo curtas especializações em cursos de associações e outras organizações, portuguesas ou estrangeiras.

GET – Existe alguma instituição que dê formação nesta área em Portugal?

R – Neste momento, existe o meu Gabinete, que está neste momento a organizar um curso em Lisboa, parceria com o Consultório do Eu (da Dra. Marisa Cruz) e envolvendo vários Consultores Filosóficos.


A Entelequia (Dr. Nuno Paulos Tavares) também realiza workshops sobre a Prática Filosófica.


Sei que a APEFP (projecto associativo de Famalicão) também já organizou um curso com o meu colega José Barrientos e está com uma dinâmica importante para a disciplina. Esperemos que cresça ainda mais.

Sei que também têm existido uns workshops em Lisboa, numa Escola de Línguas (LanguageCraft), ministrados pela Dra. Luisa Abreu e pelo professor Oscar Brenifier.


No estrangeiro, algumas Universidades já oferecem cursos, mestrados, doutoramentos.

GET – Existe alguma instituição que regulamente a profissão de Conselheiro Filosófico?

R – Ainda não. Para isso, é necessário que a profissão reúna algumas condições: cursos na Universidade, revistas científicas na área, congressos nacionais e internacionais, etc. Esperemos que venhamos a conseguir…

GET – Como vê o futuro do Aconselhamento Filosófico em Portugal?

R – Tenho esperança que, aos poucos, os projectos se consolidem e desenvolvam.

GET – Pretende acrescentar algo mais, que não tenha sido contemplado nas perguntas acima?

R – Acho que não.

GET – Muito obrigado pela sua participação.

Deixe-nos um contacto de email, caso algum leitor pretenda contactá-lo(a).

gabineteproject@mailworks.org

WEB: http://gabineteproject.blogspot.com/

quarta-feira, 4 de maio de 2011

ACÇÃO DE FORMAÇÃO EM FARO - com Jorge Dias e José Barrientos



ENTREVISTA GET Nº 2 - 4 DE MAIO DE 2011 - NUNO PAULOS TAVARES


TEMA - «ACONSELHAMENTO FILOSÓFICO»


GET – Já ouviu falar em «Aconselhamento Filosófico»? Se sim, qual foi a 1ª vez?
R – Corria o ano de 2006 quando pela primeira vez contactei com o Aconselhamento Filosófico. Foi de uma forma não intencional, enquanto pesquisava bibliografia para um trabalho que na altura estava a desenvolver, deparei-me com o site do Professor Oscar Brenifier. A partir desse dia comecei a envolver-me no movimento das novas práticas filosóficas, iniciando a minha formação na área.

GET – O que entende por «Aconselhamento Filosófico»?
R - O Aconselhamento e Consultadoria Filosófica é uma actividade educacional que propõe a clientes individuais a utilização de métodos, teorias e abordagens filosóficas para solucionar ou gerir problemas associados à existência humana.
É dirigida a clientes que são racionais e funcionais na vida do dia-a-dia e que possam beneficiar de assistência filosófica na resolução ou gestão de problemas e situações associadas à experiência quotidiana. A consulta filosófica é um momento de reforço da racionalidade na relação do consultante com a existência. O confronto das produções orais (ideias, teses, opiniões, medos, apreensões, dúvidas…) com a Lógica, a Razoabilidade, a omnipresença da Alternativa e a Diferença, em uma dinâmica dialéctica, constitui-se como exercício de crítica (auto-crítica) e busca da pressuposta coerência que preside ao pensamento filosófico.
Os candidatos mais adequados são pessoas cujos problemas se centram em questões de moralidade privada ou ética profissional; questões de sentido, valor ou objectivo; questões de realização pessoal ou profissional; questões de sistemas de crenças indeterminados ou inconsistentes; questões que exijam interpretação filosófica de circunstâncias em mudança.

GET – Conhece/prefere outras expressões para denominar esta “nova” prática filosófica?
R – Prefiro Aconselhamento e Consultadoria Filosófica.

GET – Qual a sua relação com o «Aconselhamento Filosófico»?
R – Desde 2008 que sou certificado em Philosophical Counseling pela APPA e Institut de Pratiques Philosophiques. Nesse ano iniciei a minha actividade como Consultor Filosófico edesde então dou consultas na cidade do Porto, sob o lema de Marco Aurélio: A qualidade da nossa vida depende da qualidade dos nossos pensamentos. 

GET – Qual a história do «Aconselhamento Filosófico» no mundo?
R – A Consultadoria Filosófica é inerente à prática da Filosofia, assim está presente desde a sua génese grega e existem vários exemplos históricos de reputados filósofos como consultores. No entanto, enquanto ramo específico, e apesar de algumas objecções de alguns filósofos americanos e franceses, que defendem ter iniciado as experiências percursoras, a historiografia oficial aponta o início da década de oitenta e a figura do alemão Gerd Achenbach (com a sua abordagem meta-metodológica) como o momento fundador e centro de difusão desta prática filosófica pelo mundo.

GET – E em Portugal? Quando surgiu pela primeira vez? Que desenvolvimentos já teve?
R – Tanto quanto sei, o aparecimento desta actividade em Portugal remonta ao ano de 2004, aquando da fundação da Associação Portuguesa de Aconselhamento Ético e Filosófico (APAEF), liderada por Jorge Humberto Dias.

GET – Tem ideia de quantos Conselheiros Filosóficos existem em Portugal? Quem são?
R – Desconheço o número de praticantes em Portugal.

GET – Que livros conhece sobre Aconselhamento Filosófico?
R – Os livros a que recorro com mais frequência são PhilosophicalPractice, Mais Platão, Menos Prozac, As Grandes Questões da Vida, todos de Lou Marinofff; Philosophy as a Way of Life de Pierre Hadot; Introducción al Asesoramiento Y la Orientación Filossófica de José Barrientos, Philosophy for Counselling and Psycotherapy de Alex Howard e Free Space de Jos Kessels, Rrik Boers e Pieter Mossert. Nem todos estes títulos são especificamente dedicados à Consultadoria Filosófica, contudo, e tal como todas as produções ao longo da História da Filosofia são passíveis de recurso, dependendo do tipo de questão, situação ou problema a ser investigado em consulta.

GET – E em português, já existe algum?
R – Os livros de LouMarinoff têm tradução portuguesa. De produção nacional, conheço Pensar Bem, Viver Melhor de Jorge Humberto Dias, agora na 4ª edição. Do outro lado do Atlântico, em português do Brasil existem muitas publicações sob o conceito de Filosofia Clínica. 

GET – Quais os requisitos para ser Conselheiro Filosófico?
R – Sólida formação filosófica, domínio das competências inerentes ao pensamento crítico, disponibilidade para a escuta activa, facilidade em identificar as problemáticas filosóficas inerentes ao discurso do consultante, domínio da arte de questionar, capacidade de identificar e adaptar as suas práticas às características específicas do consultante, capacidade de facilitar diálogos frutuosos através da problematização e humildade intelectual e, naturalmente, amor pela busca da sabedoria.

GET – Existe alguma instituição que dê formação nesta área em Portugal?
R – A Associação Portuguesa de Aconselhamento Ético e Filosófico e o projecto de que faço parte: Enteléquia-Filosofia Prática. Sei que existe outra associação mais recente mas desconheço a credibilidade, rigor e qualidade das suas formações.

GET – Existe alguma instituição que regulamente a profissão de Conselheiro Filosófico?
R – Em Portugal, ainda não.

GET – Como vê o futuro do Aconselhamento Filosófico em Portugal?
R – O movimento da Filosofia Prática em Portugal tem tido um crescimento assinalável nos últimos anos. No entanto, não penso que a Consultadoria Filosófica seja a vertente mais vibrante. Mesmo assim, prevejo que os resultados empíricos das consultas filosóficas e a transmissão da experiência do questionamento radical definidor desta actividade começarão a atrair mais consultantes e licenciados em Filosofia em busca de formação específica.

GET – Pretende acrescentar algo mais, que não tenha sido contemplado nas perguntas acima?
R – Não.